Roberto sentia-se definitivamente constrangido naquela situação. Passou todo o caminho evitando os olhos de Amanda. Tinha medo do que estava sentindo. Estava confuso.
Sabia que o momento era de tristeza, luto e pesar. E realmente uma parte dele estava assim. Mas existia outra, que ele tentava esconder a todo custo, que estava em festa pelo reencontro com a antiga amiga. Amiga não: primeiro amor.
Os pais de Amanda moravam na casa 27, a frente da casa onde Dona Francisca morava. Na infância, os dois brincavam juntos longas tardes. E os anos deixaram para trás as brincadeiras e colocaram naquelas mesmas tardes o namoro dos dois. Lembrava-se ainda do sabor dos lábios molhados dela. Eram inesquecíveis as tardes em que matava aula só para ficar namorando na porta da escola.
Recordou-se também que só desejou entrar na faculdade de direito porque ela queria. Foi um dos motivos que o levou a abandonar a casa e o curso para fugir com a sua falecida esposa: tinha perdido o interesse pela única causa de estar naquele campus.
Mesmo tentando não olhar, Roberto acabou perdendo o olhar no corpo da amiga. O tempo havia sido generoso com ela. O rosto não aparentava sinais de rugas, os cabelos continuavam brilhantes como sempre. E os olhos...
- Chegamos.
- Ah?
- Acorda, Rô, nos chegamos a minha casa. Se você preferi dormir no carro, comentou sorrindo.
- Já estou indo.
Havia muita bondade quando Amanda disse para ele ficar em sua casa, pois era uma verdadeira mansão. Do lado de fora, notava-se a construção magnífica que emergia por cima do alto muro. Muro que fazia com que um visitante como ele, pensasse que o lugar mais parecia uma penitenciaria saída de um programa de TV. No entanto, quando a porta se abria, sentia-se que era mais a separação entre o mundo mortal e o paraíso.
A mansão tinha um enorme gramado, cortado por um caminho de pedras que levava até o interior do lugar. A estradinha era enfeitada com lindos cravos em toda a beirada. Na direita notava-se uma grande piscina e, a esquerda, uma área para festas, com uma churrasqueira.
Dentro da casa era outro luxo. Móveis em estilo europeu, com peças de decoração modernas espalhadas elegantemente. Na parede do fundo da sala, chamava a atenção uma imitação quase perfeita de um quadro de Monet.
Amanda levou o hóspede pelas escadarias de mármore até o quarto.
- Descanse um pouco. Se quiser alguma coisa, é só ir até a cozinha. Pode ir a piscina se desejar.
- Não sei nem o que dizer Amanda. Muito obrigado.
- Isso não é caridade. É pelos velhos tempos.
Havia um sorriso saudoso enquanto ela pronunciava “velhos tempos”. Será que ele merecia toda aquela comida de graça e conforto, depois de abandoná-la? Nem ele achava que merecia. Resolveu descer e falar com ela.
- Amanda, por que me trouxe aqui? Não diga que é “pelos velhos tempos”, porque você não tem boas recordações dele.
- Seu bobô. Você me chutou para longe de sua vida, me desprezou. Eu caí na mais profunda depressão depois da nossa separação. Precisei de anos de seções semanais com psicólogos para melhorar...
- Eu sei que fui um cafajeste. Se eu te fiz sofrer tanto, por que me ajudar agora?
- Sabe porque eu sofri? Não foi por ódio foi por amor. Entrei em depressão por não ter mais você. Consultei todos os psicólogos da cidade para tentar te esquecer. Nada ajudou. Sabe por que? Porque eu te amo! Eu sou louca por você mesmo depois de você ter me trocado por outra. Nem sei se você ainda me ama, mas já não importa. Apenas queria ter você perto de mim outra vez...
O choro a fez se calar. Não podia continuar a falar. Roberto não esperava uma declaração de amor depois de todos esses anos. Acreditava em vingança, em loucura, mas não naquela declaração que acabava de receber.
- Amanda, eu... nem sei o que falar. Mas não posso ficar com você. Pelo menos não agora. Não te odeio, mas não sei se ainda te amo também. Estou confuso. Preciso de um tempo para...
- Você tem todo, - interrompeu ela – você tem toda a vida para isso. Eu estarei aqui te esperando. Amando você como sempre amei. E a hospitalidade ainda está de pé. Pode ficar aqui o quanto quiser. Agora tenho que ir para o escritório.
Ela se levantou e sai pela porta em direção a rua. Roberto estava anestesiado e confuso. Havia esquecido por um momento que a mãe fora enterrada na madrugada daquele mesmo dia. Todos os véus de luto começaram a se rasgar dentro dele. Sentia o calor da paixão novamente por dentro.
Pensou que havia secado para sempre depois da morte de sua esposa, mas aquela declaração devolvera a paixão ao seu coração. Era como se uma tocha acendesse pela primeira vez em muitos anos a lareira de uma casa abandonada. E Amanda levava aquela tocha.
Quando a amiga voltou do escritório onde trabalhava, o clima era de vergonha. Ela achava que Roberto não gostara de sua declaração apaixonada; ele não sabia como corresponder. E esse clima permaneceu por semanas.
Até Roberto resolver se declarar a nova amada.
(na próxima semana, última parte, O Novo Entardecer)
Songbird 1.4.2: A Maior decepção do Ano
1 dia atrás
1 comentários:
Certamente o ódio e o rancor não nos leva a lugar algum mas não podemos negar que essa situação é um tanto enbaraçosa.
Aguardaremos o próximo capítulo então. =)
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