Novo Entardecer (Contos da Casa 25)


Era uma manhã quente de verão. O sol brilhava forte e o seu era um grande manto azul, sem nenhuma nuvem. Amanda havia saído para trabalhar cedo e não vira Roberto, pois ele estava dormindo ainda. Já havia se passado um mês do enterro de Dona Francisca, e da declaração de amor, e o clima se mantinha o mesmo.


Pensava todos os dias se fora um grande besteira o que fez. Declarar amor no dia da morte de um ente querido não era uma boa idéia. Talvez o amado tivesse se magoado com a falta de respeito com seu luto. Ou simplesmente era indiferente ao sentimento que ela mostrou.


Houve muito trabalho naquele dia no escritório e ela só conseguiu sair de lá no início da noite. Quando abriu o portão da casa, surpreendeu-se com as tochas que queimava sobre hastes colocadas cuidadosamente no jardim. Formavam um caminho diferente, levando até a área de festas. Terminava onde as hastes faziam um círculo de fogo, que iluminava romanticamente o local.


Amanda estava tomada por um mistura de sensações e sentimentos. Estava fascinada com tudo aquilo, ao mesmo tempo que seu coração se aquecia naquela ar romântico.


De repente, Roberto surgiu pelo caminho. Usava uma camisa de linho branco, meio aberta e uma bermuda também branca. Vinha descalço em direção a Amanda. Aproximou-se, pegou delicadamente a mão dela e convidou para uma dança.


Quando aceitou, imediatamente uma música começou a tocar. Era uma daquelas canções românticas para se dançar com o rosto bem junto.


- Amanda, eu quero te dizer uma coisa.
- Fala...
- Quero te agradecer por toda a ajuda que tem me dado. Quero também te agradecer por guardar seu amor por mim todos esses anos. E também...
- Diga!
- Perguntar se esse amor sobreviveu a esse mês...
- Sim, é claro que sim!
- Então... Você ainda quer namorar comigo?
- Nada me faria mais feliz. Ou melhor, só uma coisa.
- O que? Diga que eu faço, meu amor.
- Me beija. Quero um beijo seu. Esperei todos esses anos pelo seu beijo.


Enquanto dançavam, suas bocas se calaram com um beijo apaixonado. As chamas iluminavam o rosto do casal, dando a luz merecida para aquele momento.


- Mas como você fez tudo isso?
- Ainda tinha algum dinheiro guardado. Acho que valeu a pena.
- Obrigado, Rô. Obrigado por me amar.
- Eu que te agradeço, Amanda. Você me tirou da escuridão.


****


Cinco anos se passaram depois desde aquele dia. E a vida nos leva outra vez para a pequena casa 25. Ela estava nova em folha, com uma pintura nova, um novo portão, novo que não fazia tanto barulho.


Existiam coisas que ainda estavam lá. As rosas estavam lá; o canário cantarolando também. O ar de lugar parado no tempo se mantinha.


Moravam agora na linda casinha Roberto e Amanda. Os dois namoraram dois anos, tempo em que ele destrancou a faculdade e terminou os estudos. Após o casamento, os dois decidiram morar lá, vendendo assim a mansão onde moravam antes.


Por que a troca? Por que alguém trocaria o conforto e a elegância de uma mansão, para morar numa casa velha como aquela? Existia na casa 25 um ar de aconchego, de ternura atemporal, um “q” de paz que as casas mais novas já não tinham. Naquelas poucas rosas plantadas no pequeno jardim, havia mais carinho que num campo inteiro.


Dentro da casa, o quarto que fora dos pais, agora era do casal apaixonado. O quarto do irmão foi reformado e estava vazio e fechado. O quarto que era de Roberto, foi igualmente reformado, no entanto, para um motivo melhor: foi preparado para o novo membro daquela família. O bebê que nascera a pouco mais de um mês, foi batizado de Nicolas, em homenagem ao tio.


Com o dinheiro da venda da mansão e da fazenda, Roberto e Amanda abriram seu próprio escritório, e se revesavam no trabalho para nunca deixar Nicolas sozinho.


E ali, na humilde e pobre casa 25, onde a vida parecia antes ter acabado, renascia forte e brilhante. Como antes, a rua continuava passando cinzenta pelo lado de fora. Mas agora, era colorida a vida lá dentro. É o ciclo que não pode ser quebrado: não há vida, se antes não houver morte.

1 comentários:

Kuriozza disse...

"Não há vida se antes não houver morte". Muito bom =)