O Sol começava a se esconder naquela tarde, já tão longe, refletindo sua forma alaranjada nas águas da praia, misturando-se ao azul límpido e ao branco das espumas que as ondas causam. A paisagem que só um pôr do sol pode proporcionar a um casal apaixonado.
O calor do dia já havia sido amenizado e a areia estava cheia de famílias e casais, que aproveitavam os últimos fios de claridade, num “até logo” emocionado ao astro rei.
A praia estava cheia, mas para mim só existia Pâmela, a flor mais linda e formosa que já brotou nesse lindo jardim chamado Terra. Eu a havia prometido um fim de tarde como aquele, e todo o esforço que tive de fazer para estar ali valeu quando vi o sorriso luminoso em seu rosto corado.
Estávamos em cima de uma pedra, longe dos outros mortais, numa dimensão só nossa. Toquei em sua mão, e ela não a retirou. Ficamos assim por alguns minutos, de mão dadas e sentados na praia, sem coragem de ir além daquilo.
O manto escuro e estrelado da noite começava a cobrir o céu. A lua, cheia, branca e magnífica, viera nos abençoar. Ah, namorar a luz da lua... Você deveria tentar alguma vez na vida.
As mãos foram se aproximando, e quando vimos, estávamos abraçados. A luz da lua, o som do mar, o céu estrelado... Quando demos por nós, o beijo já havia acontecido. Não algo forçado, nascido da vontade de um dos dois lados. Aquele havia fluído, escapado de nossos lábios. Nós pulamos para lados opostos, rubros de vergonha. Éramos, sem dúvida, dois apaixonados. Jovens, mais ainda sim apaixonados.
Sentia, e sinto, por Pâmela uma daquelas paixões que te arrebatam apenas uma vez na vida, daquelas que você olha para a pessoa amada e diz para si mesmo que deseja envelhecer ao lado dela. Um daquelas amores profundos que te tira de sintonia, desliga você do mundo. Um amor, acima de tudo, inocente.
- Pâmela, você estava vendo aquela estrela? Disse a minha querida apontando para a primeira estrela que brilhou no céu daquela noite.
- Sim, o que tem Caio?
- Vou dar a ela seu nome. Assim, todas as vezes que a estrela aparecer, primeira no céu, anunciando a noite que chega, você vai lembrar de mim e eu de você.
- Caio, que lindo... Mas, ela já deve ter um nome, não?
- Ela é nossa estrela, ela é sua estrela. E será só nossa, nosso segredo, então, não tem problema.
Demos as mãos mais uma vez. Confesso que desejei naquele dia, e em muitos outros que ainda viriam, que tivesse o poder de para o tempo. Tinha o anseio de tornar aquele momento eterno. No entanto, não tenho nem uma fotografia.
Levantamos e fomos cada um para sua casa. Ela foi de ônibus; eu também, se é que, naquele dia, parecia mais que estava flutuando pelo ar, levado pelo vento, carregado nos braços de Hermes.
Eu estava terminando o curso de engenharia e ela o de enfermagem. Nossos pais aprovavam nossa relação, e o pai de Pâmela me adorava. No dia seguinte conversei com meu pai sobre minha intenção de casamento. Ele mostrou um rosto de preocupação misturada com orgulho. Ficou acertado que meu pai e eu compraríamos nossa casa e o pai de Pâmela faria a festa e a decoração da igreja.
Havia conversado tudo com meu pai e com o pai dela, mas minha amada em si ainda não sabia de nada. Marquei com ela naquela mesma pedra, no mesmo horário. Comprei um anel e fui até a floricultura. Passei mais tempo escolhendo a flor certa para dar para ela do que escolhendo a aliança. Rosas eram muito comuns; cravos muito agressivos. O vendedor, então, mostrou-me os lírios. Como eram lindos! Decidi-me por um buquê de lírios, brancos e majestosos, ao mesmo tempo delicados, como nosso amor.
Não fui de terno, fui como sempre ia aos encontros. Cheguei por trás dela, para esconder as flores.
- Pâmela, tenho uma coisa muito importante pra te perguntar.
- Fala. Ela respondeu, um pouco assustada com a pergunta séria e repentina.
- A decisão que você tomar aqui vai ser a mais importante da minha vida, por isso, pense com carinho, ok.
- Ok, mas faça logo essa pergunta, já está me deixando ansiosa.
- Pâmela, meu amor, minha querida, estrela do meu céu: você gostaria de unir nossas vidas, casar-se comigo, dividir os seus sonhos e anseios comigo enquanto eu faço o mesmo por você?
Meu rosto suava, minha mão estava gelada. Os meus olhos estavam cheios de lágrimas e meu coração repleto do medo de uma possível rejeição. Pâmela me olhou perplexa, surpresa com o pedido. Demorou um minuto, que para mim foram Eras inteiras, olhando para as ondas e para a lua, mais uma vez cheia testemunhando aquela momento. Virou-se para mim com os olhos igualmente repletos de lágrimas e emoção.
- Nada me faria mais feliz nesse mundo, Caio. Nada...
E me beijou.
(O conto Flores a Vida continua na próxima semana, com Rosas da Maturidade, a segunda parte)
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