Havia uma velha estrada de barro. Local esquecido pelos governos, onde só podia se adivinhar que havia um caminho graças as marcas de pneus. O mato era alto ao redor e a chuva fina, que caía desde a madrugada, havia tornado o lugar um grande lamaçal. Era uma verdadeira linha que ligava o nada a lugar nenhum. Ou parecia ser.
Muitos quilômetro a frente, podia se avistar a porteira de uma velha fazenda. Lia-se, em português muito ruim : “Fasenda Alegria - Lugar de Felisidade”. As terras mal cultivadas e tratadas, diziam o contrário. Era um lugar grande: havia grandes campos logo após a porteira, após eles uma casa grande, e ao fundo um pequeno monte, onde se viam três cruzes.
Os campos mostravam-se terras antes muito produtivas. Podia-se ver todo o resto da horta que fora cultivada nele, provavelmente para consumo da família e para possível venda de algum excedente.
O pequeno caminho que ligava a porteira a casa, passando pelos campos, guardava um pouco da beleza que tivera em outros tempos. Era guardado por duas cercas, onde se notavam roseiras secas e mortas pela falta de cuidado. O chão não era de terra batida como os espaços ao redor: era cimentado, cheio de pedras cuidadosamente colocadas. Terminava numa escadaria que dava para a casa.
O casarão parecia tão abandonado quanto os campos. Era de uma arquitetura tipicamente rural, muito simples e ao mesmo tempo muito elegante. Sua frente era enfeitada com quatro janelas, duas a esquerda da porta principal e as outras duas a direita. Tinha um tom salmão, já envelhecido pela exposição a natureza.
O interior, como todo o restante do lugar, tentava guardar um pouco da glória passada. O teto com desenhos tipicamente católicos, com anjos e santos, talvez tentando, sem sucesso, imitar a Capela Sistina. Na parte de baixo havia a sala de estar, a sala de jantar, onde ainda se via um armário do início do século passado, onde ficam expostos as porcelanas da casa, e a cozinha, onde ainda havia um fogão a lenha contrastando com uma geladeira.
Na sala de estar, havia a grande escada de madeira de lei que dava no segundo andar, onde ficavam os quartos. E no quarto que ficava ao fim do corredor dormia um homem de meia-idade.
Roberto havia perdido as contas dos dias que passara solitário, triste naquela cama. Não trabalhava nas terras da fazenda desde a morte da mulher e da filha num trágico acidente no Rio de Janeiro. Na época, fez questão de trazer as duas e enterrá-las na fazenda, mas precisamente no alto do monte, nos fundos da casa.
Ele se lembrava daquele dia como se houvesse sido ontem: o carro da funerária entrando na fazenda, e os funcionários levando os corpos para serem enterrados. Não houve oração. Tão pouco missa. O único choro que se escutava em quilômetros era o dele. Sentia a alma em pedaços, como se de uma hora para outra levassem seus braços e suas pernas.
Naquele mesmo dia colhera todos os legumes e verduras da horta e vendera no centro da cidade. Arrumou bastante dinheiro. Comprou alimentos para muito tempo e ainda sobrou. Guardou tudo na antiga geladeira. Deitou-se naquela cama, de onde só saia quando a fome ou as necessidades físicas gritavam mais alto que seu coração.
Teve todo o tempo no mundo para lembrar tudo o que o levou até aquele momento: o curso de direito, a linda estudante de letras que conheceu no campus; o início do namoro, a paixão absurda, o abandono dos estudos e dos pais. O primeiro por que já perdera o interesse e os segundos porque não aprovavam a relação com sua namorada.
Fugiu. Não pensou nem por um segundo em mais nada, simplesmente arrumou sua mala em uma bela noite e se foi. Sem olhar para trás, sem adeus, sem escutar o choro da mãe que só se iniciou pela manhã, quando a mesma descobriu a fuga. Foi com a esposa para aquele fim de mundo, para se esconderem do mundo, dos problemas e de todos os que eram contra eles. Viveram vinte anos de sonho. Há dez entrou uma linda menininha nessa fantasia maravilhosa. A fazendo foi presente do pai de sua esposa, que aprovava o namoro. Cuidou dos campos com seus próprios braços e nunca deixou faltar nada a elas.
Mas aquele acidente o acordou de maneira trágica daquele sonho. Lembrava-se cada vez mais dos pais. Não podia deixar que morressem sem que houvesse pedido desculpas. Tinha que olhar dentro dos olhos da mãe, contar seus motivos e sentir a segurança dos seus doces braços maternos novamente. Precisava daquilo. Ela, com certeza, também.
Levantou-se, vestiu uma roupa, pegou o pouco dinheiro que sobrara da venda das verduras e foi para a rodoviária da cidade. Chegaria a casa da mãe no início da noite. Estava ansioso. Sabia que ela não iria se mudar da casa 25 por nada no mundo. Lembra dela dizendo que morreria ali. Um calafrio passou pelo seu corpo nesse momento, arrepiando os pelos do seu pescoço. Ficou com ainda mais pressa de vê-la.
Desceu do ônibus e pegou outro, que o deixou mais perto da rua da casa da mãe. Parou em frente o portão. Suas mãos estavam geladas. Imaginava como seria recebido. Tocou a campainha. Seria com um sorriso? Tocou pela segunda vez. Talvez não quisesse vê-lo novamente. Tocou mais uma vez. Ela nunca o desprezaria. Ficou preocupado, a mãe nunca deixava de atender a porta. Tocou a terceira vez. Nada.
As primeiras estrelas brilhavam no céu noturno. O vento começara a soprar novamente contra a casa. Lembrou-se que ainda tinha as chaves da casa. “Tomara que mamãe não tenha mudado a fechadura”, pensou. Colocou a chave no portão e girou: abriu num rangido. As dobradiças já eram enferrujadas quando ele se foi e, pelo que parecia, não foram substituídas. Colocou a chave na porta da casa. Abriu. Viu logo o canário taciturno em sua gaiola.
- Pai? Mãe? Vocês estão aí?
Encontrou a velha televisão na sala ligada. Foi para o corredor. Havia duas luzes ligadas. Uma vinha do seu velho quarto, outra do quarto dos pais.
- Será que estão dormindo? Não é possível, como não acordaram com a campainha?
- Papai, mamãe, vocês estão aí?
Ninguém respondeu. Ia se aproximando do quarto dos pais. Seu passos ecoavam pelo corredor silencioso. Era um caminho de dez segundos que pareceu demora mais de dez horas. Empurrou a porta que estava entreaberta. A mãe estava deitada, com um ar sorridente no rosto.
- Mamãe? Sou eu, Roberto, você não está me escutando? Acorde!
Sentou-se preocupado na cama. Instintivamente, a beijou no rosto. Gelada. Olhou de perto. Sem cor.
- Mamãe? Não, mamãe acorda! Eu preciso de você, eu preciso do seu perdão. Acorda, pelo amor de Deus. Não me abandona... Não me deixa, não...
(continua na próxima semana com A Madrugada)
1 comentários:
Com um certo atraso venho conferir a continuação da sua história e vou logo para a madrugada!!!
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