A Madrugada (Contos da Casa 25)


Roberto não acreditava que estava passando por isso novamente. Sentado, em frente a um caixão, onde descansava uma pessoa querida. Seus olhos estavam inchados pelo choro; não conseguia segurar um copo de água sem derramá-lo.


O funeral se daria no fim da madrugada. Enquanto isso, Dona Francisca estava lá, deitada no centro da capela do cemitério. Tinha um bom espaço e o lugar era muito bonito e arejado. Na entrada, havia dois anjos de mármore, um certamente, era São Miguel. As estátuas passavam um sentimento forte, tinham um verdadeiro ar de guardiões do local. Um pequeno caminho de pedra, levava da entrada até o local principal.


A Capela era de um elegância tremenda. Tinha a faixada branca e o interior totalmente pintado de um tom muito claro de azul. Os chão era coberto por pisos que acompanhavam a cor do teto e das paredes. Na lateral direita, uma grande janela estava aberta, dando visão para os túmulos do lado de fora. Todo o lugar passava a tranquilidade necessária para um momento tão difícil como a morte de um ente querido.


Os conhecidos de Dona Francisca encheram o lugar com coroas de flores. Uma senhora, amiga de igreja da falecida, passou muito tempo arrumando o caixão, enchendo-o de rosas brancas. Muitas pessoas passaram a noite com Roberto, velando o corpo.


Roberto pensou em levar o corpo da mãe para a fazenda, no entanto, a distância e uma coisa mais o impediu. Lembrava-se do desejo da mãe de ficar junto com o marido, mesmo depois de morta. Seu Arnaldo havia comprado um jazigo para os dois um pouco antes de morrer. Não poderia separá-los, não depois de uma vida inteira de companheirismo e amor.


Quando encontrou o corpo, a primeira atitude que o filho teve foi chamar uma ambulância. Os enfermeiros confirmaram o que ele já sabia e lhe recomendaram que contratasse um serviço funerário. Ligou para alguns conhecidos de sua mãe, que lhe contaram do jazigo que o pai comprara. Entrou em contato com o cemitério e ali estava.


Encontrava-se desesperado. Não tinha mais ninguém na terra. Sua mãe, seu pai, seu irmão, sua mulher, sua filha: todos eles... se foram. Estava mais atordoado por não ter tido o tempo de conseguir o perdão dos pais.


No fim da madrugada, o padre chegou para fazer a oração. Todos se reuniram em volta de Dona Francisca. Roberto só conseguiu se levantar com a ajuda de outros rapazes. A benção se inciava. Era o fim, realmente agora a ficha começava a cair: ela não estaria mais ali. Nunca mais sentiria o abraço quente, nem comeria o pudim que só ela sabia fazer. Não seria mais tocados pelos doces e macios lábios amorosos, nem escutaria um sermão por fazer besteira. Tudo havia se silenciado naquele momento.


Começou a sentir uma falta profunda do que fora o motivo da sua fuga: da preocupação dos pais, do carinho, do amor. Como poderia doer tanto? Como Deus havia criado uma dor tão forte como aquela, que parecia corroer sua alma por completo? Quantas pancadas não havia tomado que doeram menos? Quantos ossos quebrados, e cortes profundos não geraram menos sofrimento?
Era um sentimento único que se apoderara da sua alma. Algo que não sentiu em nenhuma das tragédias anteriores. Uma dor diferente, misturada com arrependimento e culpa. Tudo junto.


O padre acabara o seu trabalho e os funcionários do cemitério começaram a fechar o caixão. O choro de Roberto ficou mais alto, tão alto que começou a contagiar a todos na Capela. Só os coveiros permaneciam sérios, pois já estavam acostumados aquele tipo de situação.


O cortejo fúnebre saiu da Capela e seguiu rumo ao jazigo da família. Apenas alguns metros físicos; entretanto, muitos quilômetros mentais. Naquele momento, tudo se transformava em tortura psicológica. Em poucos minutos, chegaram ao local do enterro.


Roberto não teve forças para falar mais nada. Os coveiros foram abaixando o corpo, enquanto o caixão era banhado pelas rosas, agora de todas as cores, que os amigos e conhecidos jogavam para Francisca como última homenagem. Roberto olhou até a terra bloquear sua visão. Havia acabado.


Após o enterro, todos os amigos foram abraçar e mostrar seus sentimentos ao filho da morta. Morta. Ele ainda não tinha se acostumado com o novo adjetivo da mãe. Não sabia para onde ia, nem tão pouco o que iria fazer. Foi quando Amanda apareceu.


Amanda era uma antiga amiga de faculdade de Roberto. Fora sua namorada até conhecer a mulher pela qual se apaixonou e fugiu. O tempo parecia ter feito bem para ela. Continuava magra, cabelo castanho claro até a cintura. A pele num tom claro de moreno e pequeninos e brilhantes olhos cor de mel.


- Você não pode ficar sozinho, Rô. Vai ficar comigo, pelo menos, hoje. Vamos.
- Mas... Não vou incomodar, Amanda?
- Deixa de ser bobo e vem.


Se não fosse o momento triste, ele poderia jurar que aquele reencontro acendeu uma coisa esquecida há muito tempo.
Deixaram o cemitério no carro de Amanda, rumo a casa da mesma.


(na próxima semana a continuação, O Alvorecer)


1 comentários:

Kuriozza disse...

Após tanto sofrimento, pressinto que será muito belo esse novo alvorecer. =)